À medida que a inteligência artificial passa a participar de análises, recomendações e decisões nas organizações, uma expressão aparece com frequência: human in the loop — o humano no circuito.

A ideia parece oferecer uma garantia: a IA analisa, recomenda ou produz; uma pessoa revisa e toma a decisão final. Mas a presença humana, por si só, não assegura qualidade, discernimento ou responsabilidade.

Uma revisão sistemática publicada na Nature Human Behaviour analisou 106 experimentos e 370 resultados sobre a colaboração entre pessoas e inteligência artificial. A conclusão desafia uma das crenças mais difundidas sobre o tema: em média, a combinação entre pessoas e IA apresentou resultados melhores do que os obtidos apenas por pessoas. Entretanto, não superou o melhor desempenho alcançado por uma pessoa ou pela IA trabalhando separadamente.

Em outras palavras: somar uma pessoa a uma tecnologia não significa, automaticamente, combinar o melhor das duas.

Nas tarefas de criação de conteúdo, a colaboração apresentou maior possibilidade de ganhos. Nas tarefas de decisão, porém, os resultados foram, em média, inferiores aos do melhor agente trabalhando sozinho.

Uma das possíveis explicações está na forma como essa colaboração é desenhada. Quando a IA apresenta uma resposta pronta antes que a pessoa construa sua própria análise, essa resposta pode se transformar em uma âncora. A pessoa deixa de avaliar o problema para avaliar apenas se concorda ou não com a solução apresentada. A revisão humana continua existindo formalmente, mas sua função muda: em vez de exercer julgamento, ela tende a validar.

Outro estudo, apresentado na conferência CHI 2025, investigou 319 profissionais e reuniu 936 exemplos reais de utilização da IA generativa no trabalho. Os pesquisadores observaram que uma confiança maior na IA estava associada a uma menor manifestação de pensamento crítico. Já a confiança do profissional em sua própria capacidade estava relacionada a um exercício maior desse pensamento.

Isso não significa que a tecnologia elimine o raciocínio. Ela modifica o lugar em que ele precisa acontecer. Parte do esforço deixa de estar na produção inicial e passa para a verificação das informações, a integração das respostas ao contexto e a supervisão do trabalho realizado com a ferramenta.

O ponto é que nem todas as organizações redesenharam seus processos para essa mudança. Muitas incorporaram a IA, mantiveram uma aprovação humana ao final e consideraram que o risco estava controlado. Mas quem revisa possui conhecimento suficiente para identificar um erro plausível? Tem acesso ao contexto que não foi fornecido à ferramenta? Conhece os critérios que deveriam orientar a decisão? Tem autoridade para discordar da recomendação? E dispõe de tempo para realizar uma análise real, ou apenas para confirmar rapidamente o que foi produzido?

Sem essas condições, o “humano no circuito” pode se tornar apenas uma etapa administrativa.

Para que a colaboração produza valor, é necessário desenhá-la deliberadamente.

Primeiro, distinguir criação de decisão.

Usar IA para ampliar alternativas, elaborar hipóteses ou produzir uma primeira versão é diferente de utilizá-la para recomendar uma contratação, avaliar desempenho, definir uma promoção ou orientar uma decisão estratégica.

Quanto maior o impacto e menor a possibilidade de reversão, maior deve ser a exigência de evidências, contexto e julgamento independente.

Depois, estabelecer quem faz melhor cada parte do trabalho.

Não basta definir que “a IA apoia e o humano decide”. É necessário decompor a atividade: quem busca informações, quem formula hipóteses, quem identifica exceções, quem interpreta o contexto e quem assume a responsabilidade pela conclusão?

Em decisões relevantes, preservar uma análise anterior à recomendação da IA.

Quando a pessoa registra sua hipótese e seus critérios antes de consultar a ferramenta, torna-se possível comparar raciocínios, investigar divergências e evitar que a primeira resposta recebida determine toda a análise.

Por fim, avaliar a configuração completa.

A organização precisa comparar os resultados produzidos pela pessoa, pela IA e pela combinação entre ambas. O que deve ser medido não é apenas velocidade, adesão ou volume de utilização, mas a qualidade da decisão, os erros evitados, as exceções identificadas e os efeitos posteriores.

Essa avaliação pode revelar algo desconfortável: em determinadas atividades, a combinação não será a melhor alternativa.

O objetivo não deve ser colocar IA em todas as decisões nem manter uma participação humana apenas para transmitir segurança. Deve ser construir uma divisão do trabalho capaz de preservar as capacidades mais importantes de cada parte.

Isso também redefine o desenvolvimento das pessoas. Se profissionais forem chamados apenas para confirmar respostas produzidas pela tecnologia, poderão perder justamente a experiência necessária para questioná-las no futuro. A organização ganha velocidade no presente, mas enfraquece sua capacidade de julgamento no longo prazo.

A presença humana só agrega valor quando encontra conhecimento, contexto, autonomia e responsabilidade.

Ter um humano no circuito não é governança. Governança começa quando esse humano continua capaz de compreender, questionar e dizer: a recomendação está errada.

Fontes
Nature Human Behaviour — When combinations of humans and AI are useful: a systematic review and meta-analysis
Microsoft Research e CHI 2025 — The Impact of Generative AI on Critical Thinking
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